Deus é brasileiro

DEU EBÓ NO MERCOSUL

Umbanda e candomblé enfrentam a tradição católica
argentina e constroem terreiros na terra do tango.

Consuelo Dieguez

Fotos: Liane Neves
Alberto de Oxalá e seu terreiro: Jesus Cristo com
Preto Velho atraem fiéis de classe média, como Eva
Salvador
(abaixo), que entrou na umbanda pela
porta das artes divinatórias dos búzios.

É noite em Buenos Aires. A temperatura cai a 8 graus Celsius neste final de outono. Pequenos grupos de pessoas bem vestidas encolhidas em seus casacões de lã, descem para o porão de uma casa azul na esquina de um bairro central da cidade. No centro do salão, um altar com imagens de Jesus, São Jorge, Preto Velho e Iemanjá. Ao lado do altar estão algumas oferendas: vinho tinto, uísque, um pote de barro com canjica, milho e frutas. Quinze filhos-de-santo pisam descalços no chão de cimento. Trajam roupas brancas de mangas cavadas e esfregam as mãos enquanto aguardam o início dos rituais de passes. São fiéis em busca de algo que amenize os males da existência — da falta de emprego, grande aflição dos argentinos no momento, aos dramas do coração. Na fachada da casa, uma discreta placa de bronze dá uma idéia do que ocorre lá dentro: Centro de Religión Africana Ogum-Iansã, Babalorixá Alfredo de Ogum.

Trata-se de um terreiro de umbanda, como os que existem no Brasil, ainda que com algumas adaptações. Hoje, existem cerca de 1.000 terreiros só em Buenos Aires. Subproduto da integração proporcionada pelo Mercosul, o crescimento da religião afro-brasileira por terras portenhas se deve à emigração de pais-de-santo gaúchos, intensificada a partir do início dos anos 90. Enquanto no Brasil as estatísticas mostram que a umbanda parou de arregimentar fiéis, por causa do crescimento das igrejas evangélicas, na Argentina a religião afro-brasileira foi a que mais cresceu nos últimos dez anos, segundo o Ministério de Relações Exteriores e Culto do país. Até o início dos anos 80, existiam apenas três terreiros registrados. As estimativas dão conta de que 50.000 argentinos já freqüentam os terreiros, chamados por eles de "templos".

Banquetes — Na Argentina, mais católica e mais branca do que o Brasil, os hábitos religiosos tradicionais deram um caráter peculiar à umbanda. Para fugir à acusação de sacrifício de animais, os argentinos consomem os bichos que matam. Cabritos, galinhas, porcos são servidos em banquetes oferecidos aos fiéis em homenagem aos orixás. Somente o sangue é usado nos rituais. Também não se fazem despachos nas ruas. As oferendas para os santos são depositadas em locais desertos, distantes das cidades. Mesmo porque qualquer ritual em via pública tem de ter autorização expressa da prefeitura local, que invariavelmente nega o direito aos umbandistas.

A maioria dos terreiros pratica abertamente a umbanda, religião que no Brasil já é de matriz sincrética, misturando santos da Igreja Católica a orixás africanos. O que pais-de-santo como Alberto Jesús Tata de Oxalá em ação na Argentina fizeram foi acentuar essa natureza eclética. No terreiro de pai Alberto estão as cores e a atmosfera das igrejas, vários adornos de cruzes e imagens da Virgem Maria misturadas a estátuas de Pretos Velhos e orixás. O candomblé, por só cultuar os orixás, é mais perseguido. Por isso, e apesar de ser preferido pelos pais e mães-de-santo, é praticado às escondidas nos mesmos terreiros. Apesar de tais cuidados, não é raro ocorrerem prisões de pais-de-santos, acusados de curandeirismo e bruxaria. "Somos chamados aqui de diabos, bruxos e matadores de galinhas", reclama iyalorixá Peggie Poggi, de 64 anos, filha de imigrantes italianos e chamada de "Peggie de Iemanjá". Ela já foi presa cinco vezes. Numa delas estava com os búzios e - diz - acabou dando uma consulta para o delegado.

Adivinhações — Ao contrário do Brasil, os umbandistas argentinos são majoritariamente de classe média conforme levantamento do Ministério de Relações Exteriores. Eva Salvador, de 67 anos, dona de uma pequena empresa de assistência médica, é uma recém-convertida. Há seis meses descobriu a umbanda por meio de uma consulta de jogo de búzios. "No começo, só queria saber de meu futuro, mas depois percebi que essa religião poderia abrir meus caminhos", diz Eva.

É por essa porta — a das adivinhações — que os argentinos estão sendo cooptados pela umbanda. Alejandro Frigerio, antropólogo da Universidade de Buenos Aires e um dos maiores estudiosos de religiões afro-brasileiras no país explica que a umbanda, por ter esse forte componente divinatório, se tornou atraente para os argentinos como é a astrologia. A diferença é que, após a consulta, os pais ou mães-de-santo sugerem que o cliente faça alguns trabalhos — chamados no Brasil de "ebós" — para se livrar das energias malignas que estariam causando os problemas. Aos poucos, convencem o cliente a aderir à religião sempre através da umbanda. Só depois de algum tempo é que há uma iniciação no candomblé. "A cultura católica está muito arraigada no argentino. É difícil fazê-lo romper com esses símbolos", diz Peggie de Iemanjá. "Aos poucos, estamos conseguindo."

As religiões brasileiras estão ultrapassando as fronteiras do país e ganhando o mundo. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo é a face mais conhecida dessa expansão, mas o fenômeno envolve outras crenças, além da umbanda e do candomblé. Santo Daime, União do Vegetal e Deus É Amor também já chegaram a outros países. No total, os sotaques e ritmos das seitas brazucas já se fazem notar em pelo menos cinqüenta países. A Universal está instalada em Portugal, Espanha, Estados Unidos, México, Colômbia, Uruguai e Argentina. A Deus É Amor, uma outra vertente evangélica, está no Uruguai e na Argentina. As seitas do Santo Daime e da União do Vegetal alcançaram Portugal, Espanha e Holanda, entre outros países.

A forma de expansão obedece a peculiaridades de cada religião. Na Argentina e Uruguai, onde as crenças de origem africana são minoritárias, em vez de dizer que os fiéis estão possuídos por espíritos do mal, como faz no Brasil, a Universal preferiu investir na cultura fortemente "psicologizada" desses países. Os pastores então invocam a ajuda do Espírito Santo para combater males como a "depressão", a "ansiedade" e a "angústia". Prozac e Lexotan perdem. Hoje, a Universal possui 22 templos em Buenos Aires e seis em Montevidéu. Já o Santo Daime, seita de origem amazônica, que cultua um vegetal alucinógeno, investe em sentido inverso. Contra as religiões tradicionais, celebra seus alegres cultos em português, mesmo que todos os fiéis sejam holandeses. Ninguém entende nada. Nem é para entender mesmo. Fica mais alucinante assim.